Quando o pequeno
atingiu treze anos...
Certo dia, voltava
ele em sua carruagem em direção a sua morada
e pode observar de longe que todo o povo local corria em direção
àquela morada,
todos no desespero, com baldes de água na tentativa
de apagar o
fogo que se alastrava por todo aquele castelo. O fogo...
Não só
levou os móveis, as jóias, não só derrubou muralhas, que antes
pareciam ser tão sólidas, como também levou-lhe seu paizinho e
sua
mãezinha. Ele sentou-se
então num jardim, e seus olhozinhos frágeis,
de menino de treze
anos, via que algo chamado “fogo”, de repente,
levava-lhe tudo
aquilo que lhe cercava, que lhe amava. A seu lado,
no
gramado, existia uma flor, uma flor singela, mas bela, ele
agarrou-se àquela flor e disse-lhe:
- Creio que de
hora em diante, você será a minha única companheira...
Seus pais foram
sepultados, ou o que o fogo deixou sobrar deles...
O resto de sua
família, de maus feitores, interessados certamente nas
terras, e
no resto que ficará tiraram tudo do pequeno. E ele, se viu
forçado
a pedir pousada na cidade a um velho que mantinha e
sobrevivia de
um estábulo. Ali, nos seus
treze anos, começou a conhecer o outro lado,
o trabalho, a
humildade, mas também encontrou naquele velho,
que não só lhe
deu pousada, mas que lhe deu cama, que lhe deu carinho,
que lhe
deu amor, certamente a esperança de que seus familiares
haviam
errado, mas, de que mais adiante, haveria decerto dele ser
feliz.
Sete anos se
passaram... Já com vinte anos...
Começou o sorriso
a surgir de novo em sua face, porque apesar
da simplicidade
daquele velho ele havia lhe ensinado o essencial,
de que não
haveria necessidade das roupas bordadas, nem o luxo
do castelo
para que ele pudesse ser amado.
Certo dia acorda o
jovem feliz e como sempre fazia, levava aquele senhor,
o pão e o
café da manhã em seu aposento. Ao levar...Encontrou só o corpo,
o espírito já partira.
Mais uma vez, ele
defrontava-se então, em seus vinte anos, com a
perda de alguém
em quem ele aprenderá a amar e respeitar.
Correu ele aos
campos, sentou-se em meio à mata e chorava
desesperadamente,
como se a mesma criança dos trezes anos
tivesse, por alguns
instantes, ressurgido em toda a sua lembrança,
mais uma vez ele
olha do lado e lá existia outra florzinha, outra flor
estranha,
colheu a flor nas mãos e disse-lhe:
- Agora sou eu,
você, e aquela flor estranha, em que apanhei quando
tinha treze
anos no desespero nos jardins de minha casa, e até hoje só
na
água, nunca murchara, nunca morrera, ficara bela.
Quem sabe você não
será companheira!?....E levou consigo a flor!...
Foram
providenciados os funerais do velho senhor, lá, ele foi ao
cemitério,
deu o último beijo, voltou para o estábulo, e quando
se preparava...
A irmã do velho senhor bateu à porta e disse-lhe:
- Aonde vai? O
rapaz disse-lhe então:
- Vou embora, não
tenho mais casa ele partiu!?...
A mulher então,
mostrou-lhe um papel e naquele papel, aquele velho
senhor lhe
deixava aquele estábulo simples, e os poucos grãos que possuía.
Enfim, o rapaz
ganhará uma morada.
Passaram-se mais
dois anos, dois anos de solidão.
Até...e já com
vinte e dois anos, conheceu ele Catarina.
Uma moça pura,
prendada, boa, delicada, seus olhos eram da cor do
próprio céu,
as suas palavras eram tão meigas, tão meigas, que
conseguiam fazer até com que os oceanos se acalmassem.
Apaixonou-se o
rapaz, e levou Catarina ao altar, e transformou-a não
só em
esposa, mas como em sua própria deusa, como em sua própria
rainha, como em sua própria essência de vida.
Vieram, comum
dessa união, dois lindos filhos, gêmeos.
Tudo era
encantador, enfim a felicidade, enfim alegria após vinte e dois
anos.
O tempo se
passara, chegara aquele homem, aos trinta e três anos e já
possuía a metade da vila, de propriedades, através de seu
sacrifício,
através de seu trabalho, no sentido de sempre
proporcionar a
Catarina o que havia de melhor.
Mas, havia algo em
que aquele rapaz, agora já homem, não entendia...
Catarina todos
os dias à tarde, pegava um barco, atravessava um
lago imenso e
adentrava uma mata.
O que enfim, faria
sua esposa todos os dias ao entardecer atravessando
aquele lago
imenso?!... Certo dia, Catarina disse-lhe:
- Caro esposo,
hoje, para onde vou, desejo levar nossos filhos.
Ele respondeu-lhe:
- Vai de novo atravessar aquele lago, afinal, o que fazes lá?...
Ela simplesmente
mostrou-lhe um sorriso e não lhe deu resposta.
Pegou seus filhos
pelas mãos e foi atravessar aquele lago.
Sem que houvesse
explicações lógicas aquela embarcação naufragou.
Ela e seus dois
filhos desapareceram e seus corpos nunca foram
encontrados. O rapaz chegou ao
desespero...
Mais uma vez,
porém agora a beira do lago, aquele homem chorava
desesperadamente e pediu a resposta do porquê de tanta
infelicidade.
Lá!...Fazia-se
presente, também, mais uma daquelas flores estranhas,
ele colheu
a flor e disse-lhe:
- Esta é a última
vez que digo, agora serei só companheiro de vocês flores!...
Não quero mais
nada! Não quero mais ninguém!...
Curtiu o homem
essa dor e essa solidão durante três longos anos.
Certo dia...Já não
se importando mais, já tendo perdido a maior
parte de seus bens,
já tendo se entregado ao álcool ao vício, pensou:
“Ó!...Não me resta
mais nada, quero partir desta terra ingrata!
Afinal, qual
haveria de ser o motivo d´eu aqui permanecer?!...”
O homem foi então
à cozinha, procurou a maior de todas as facas,
fechou seus
olhos, e, no momento, certamente, que a enfiaria em suas
entranhas, eis que alguém bate à porta. Ele parou por um
instante...
“Deixe-me atender
este!... É, afinal será o último!”...
Ao abrir a
porta...Deparou-se aquele homem com um senhor de cabelos
longos,
de barba branca, exprimia seriedade, amor e paternidade;
passando a ele uma paz que ele jamais sentira antes, então o
senhor
indagou-lhe:
- Posso entrar?...
ele disse-lhe: - Sim!
O homem sentou-se
à mesa junto com aquele desesperado, e
ele abriu seu
coração...Bem ao centro da mesa, estava lá, uma jarra e
as três
flores. Então, O homem que bateu à porta indagou –lhe:
- Que flores são
essas?
E, ele relatou
como aquelas flores haviam por fim chegado até ele
e todas em
momento de dor.
Aquele senhor
sentado à mesa disse-lhe:
- Uma dessas
flores representa certamente vosso pai e vossa mãe;
a outra
flor, representa certamente os vossos filhos; e, a outra flor,
certamente representa o Espírito Santo e todos esses seres.
O
desesperado então indagou-lhe:
- Quem sois vós!?
É padre? É missionário?
O homem disse-lhe:
- Sou mais que isto!
- Ora...Só haveria
de ter um desejo agora, quero morrer...
Para ir onde está minha
esposa, meus pais, meus filhos e aquele
velho senhor que conheci
e, tão logo saias daqui, vou fazê-lo!
Então, o velho
visitante, disse-lhe:
- Começais!... e
antes que faças e que cometas este ato, eu faça
às
confissões... Vá...E deite em vosso leito!...
Assim fez o
desesperado deitou-se e sonhou.
Sonhou com um
lugar lindo, cheio de flores, com aroma inigualável,
com uma paz
transformadora, os próprios pássaros falavam,
os jardins eram
magnânimos e os seres dotados só de pureza,
só de encanto...
Acordou ele
assustado, e lá estava o velho senhor, ao lado de seu leito.
Que
então perguntou:
- Com o que
sonhara?...
Ele disse-lhe:
- Sonhei com o
paraíso certamente. Que lugar seria aquele que sonhei?
E o senhor
respondeu-lhe:
- Esse é o lugar
onde estão aqueles que fizeram a sua parte na terra
vos
aguardando no futuro. Porém, ainda tens muito a ser feito.
Esse
lugar é uma das cidades em que são comandadas por aqueles que
são chamados de meus filhos.
Antes...Antes, que
cometa teu último gesto, vamos comigo...
vamos atravessar enfim,
aquele tal lago e, vamos lá ver do outro lado
do lago, saber
enfim o que vossa querida esposa e que vosso pequeninos lá
partiram...
O homem disse-lhe:
- Muito bem, muito bem!...
Atravessaram o
lago, para espanto de todos, lá encontram pobres,
estropiados e
leprosos que eram esquecidos e escondidos pela comunidade
local,
e eles, cultuavam aquela mulher e aquelas crianças, até mesmo
através de esculturas, porque eram, os únicos seres, até então,
que haviam
fugido e lhes levavam comida, conforto e amor.
O velho senhor
então...indagou-lhe:
- Vedes agora o
que vossa esposa fazia?
Ele, em lágrimas,
disse: - Sim...
Agora
responda-me!...Indagou o velho senhor ao desesperado...
- Se partires como
desejas, antes de tua hora, como ficarão essas pessoas?
Já sem tua esposa
sofrem...Mas, quem sabe você haveria de amenizar
tudo, esse
sofrimento desses seres!...
O homem disse:
- A minha vontade
é de permanecer aqui mesmo, e oferecer-lhes todo
o meu amor,
todo o meu carinho, é... talvez a felicidade seja essa!
Velho senhor, é
minha vontade aqui permanecer por enquanto.
Vamos até o barco,
voltarás então, sozinho...
O velho foi com o
desesperado até a borda do lago e virando-se a ele,
disse-lhe:
- Eu não preciso
de barco algum para atravessar este lago!...
Porque Eu sou o
próprio dono das águas...
E o próprio Criador do Universo!...
Eu estive presente
em todos os momentos de dor de tua existência
na presença
daquelas três flores, que vos representaram vosso Pai
magnânimo,
vossos filhos belíssimos e o Espírito Santo que todos eles
continham em seus corações!...
Aprendei a
aguardar!...Acabai com a tarefa daquela que esta onde
sonhastes, e certamente, um
dia não só lá estarás, mas quem sabe...
Serás um dos
grandes ministros que lá estão!...
O homem,
assustado...indagou:
- Quem sois
vós?...
Aquele ser, então,
virando-lhe as costas, dispensou o barco,
andou sobre as
águas, e ao meio do lago... respondeu-lhe:...